09/02/2010

♪ Home plus pluuuus ~ ♫

Minhas férias não têm nada de especial: sem viagens e sem muita gastança. Tempo tenho de sobra, mas não dinheiro. Então aproveito pra curtir as coisas pequenas, estudar mais coreano, sair com os amigos aqui perto de casa, essas coisas.

Hoje, quando estava fazendo compras no Home plus, lembrei de tirar umas fotos e vídeos para compartilhar aqui no blogue. Coisas pequenas que sempre esqueço. Antes de começar, dêem uma olhadinha no comercial do Home plus na TV:


Bem "Daiane dos Santos", né? Pois não é só no comercial! No supermercado mesmo eles tentam reproduzir esse ambiente coreográfico. Obviamente que não é tão ousado e organizado, mas eles realmente colocam os vendedores (na maioria mulheres) para dançarem a musiquinha mais lavagem-cerebrante da história da humanidade. Eu já tentei filmar essa cena várias vezes, mas tive problemas: ou o pessoal parava de dançar de vergonha quando me via filmando, ou um carinha chato aparecia pra dizer que era proibido filmar dentro do supermercado. Por isso aqui está um vídeo mais ou menos, de um outro estrangeiro que tentou flagrar esse momento mágico na hora das compras na Coreia.


As ajummas têm que suar pra ganhar o pão de cada dia, meus amigos! O próximo vídeo eu gravei hoje sem ninguém me encher o saco, mas a única coisa que dá pra notar é como os vendedores disparam a falar feito papagaio. O supermercado às vezes parece um mercado aberto, e ganha quem tem mais gogó. Já fui "abduzido" por uma ajumma uma vez que me convenceu a levar o sabão em pó dela.


Agora vamos a uma pergunta que muitos me fazem: as coisas são caras ou baratas na Coreia? Para mostrar como essa pergunta é ampla e difícil de responder, tirei duas fotos de produtos diferentes. (Lembrando que ₩1,000 equivale a cerca de US$1)

Yakult (20 unidades): ₩1,580 (cerca de R$2,50)


Super mexerica do Capitão Caverna (8 unidades): ₩45,900 (cerca de R$73!)

Se me lembro bem, um pacotinho de Yakult no Brasil com 6 unidades era uns R$5 (ou seja, quase R$1 por frasquinho!). E agora eu me entupo de lactobacilos vivos à vontade. Já as frutas... quem tem problema de coração não pode ver os preços aqui. Uma vez quis comprar um abacate (que aqui é 1/3 do tamanho do abacate no Brasil) e custava ₩6,000 cada!

É claro que tirei foto das frutas mais caras para mostrar o contraste, e dá pra achar coisas mais baratas. Mas em geral as frutas aqui são muito mais caras que no Brasil. Até fiquei pensando "será que alguém compra essas caixas de frutas supercaras?". Dali a 2 minutos me deparo com essa cena:


Um ajoshi comprou 4 caixas com uma combinação de frutas diferentes, e note que embrulhou para presente. Agora, repare no preço de cada caixa (clique na foto para aumentar e ver com seus próprios olhos, caso não acredite....... ₩99,000!!!). Mais de R$150!!! Cada semente é um diamante, só pode!

Agora vamos a outras esquisitices. Lembram da moda do Ryder no Brasil? Todo mundo usava um Ryder. Até descobrirem que aquilo fazia o pé suar e feder, e as Havaianas tomaram conta do pedaço. Aqui na Coreia o Ryder ficou pra sempre. Até faz sentido, porque numa cultura em que se tem que tirar os sapatos toda hora, é melhor usar Ryder com meia para ir só ali na esquina e voltar. O que me impressiona é a variedade de modelos: apenas UM modelão domina o mercado entre os estudantes. Desafio vocês a irem a qualquer alojamento universitário e encontrar mais de 20% dos alunos que usem modelos diferentes. É BA-TA-TA! Todo mundo usa esse "Ryder" preto de listrinhas brancas. Algumas poucas vezes, quando variam o modelo, é rosa de listrinha branca ou amarelo de listrinha branca. De qualquer maneira, é a criatura mais feia para se colocar num pé que já vi na minha vida.

O preço até justifica: é o par de chinelos mais barato no supermercado.

Em algumas coisas os asiáticos não gostam de ser diferentes. A sensação de que "todo mundo usa a mesma coisa" faz com que todo mundo se sinta mais confortável, nem mais chique nem mais brega que ninguém. Esse chinelinho enzebrado é tão comum que no dormitório em que morei em Cheongju tinha uns 6 pares dele na entrada de cada apartamento. E como os tamanhos eram iguais, ninguém ligava se tava usando o seu ou o de outra pessoa. Na hora de sair, colocavam o primeiro que vissem na frente e pronto. Simples assim!

E já que estamos nas breguices, vamos a outro produto: a cueca. Vou te falar, tem hora que achar uma cueca "normal" para os meus padrões é uma angústia. O que aconteceu com a velha e boa cuequinha branca ou cinza? Acho que esses coreanos se transformam depois da meia-noite e dão AQUELE show. Espia só o estilo da maioria das cuecas aqui.

Conseguem encontrar alguma cueca sem estampa e com uma cor menos "cheguei" aí?

Para terminar esse post, que já ficou longo demais, aqui vai um videozinho de uma geringonça que fica na porta do supermercado em dias de chuva (como hoje). É uma "camisinha pra guarda-chuva", pra você não sair molhando tudo lá dentro. Eu achava essa parada antiecológica, mas me disseram lá que, como todos devolvem o plástico na saída, eles são reutilizados ou reciclados.


Abraço para todos!

08/02/2010

Virei motorista coreano!

Depois de encher o saco do Renato pra me explicar como tirar carteira de motorista coreana, finalmente consegui. Foi tudo muito rápido. O único inconveniente foi ter que traduzir a minha carteira brasileira na embaixada (um pedacinho de papel custou 22,500W e demorou 2 dias úteis. Afinal, a Embaixada é do BRASIL né!).

Agora eu estou aqui no Departamento de Trânsito, e em 20 minutos preenchi os papeis, paguei 11,000W e fiz o exame de vista e "psicotécnico" mais rápidos da minha vida! Inacreditável. Me perguntaram só 3 números, sendo que um eu chutei porque tava embaçado! :P Agora tá explicado por que os coreanos são essas maravilhas de motoristas [modo SARCASMO ON].

Só tenho que esperar 30 minutos pra imprimirem minha carteira e pronto. Enquanto isso dou uma atualizada no blogue pelo celular (chique hein?). Interessante é que nem tenho carro aqui! hehe mas a gente nunca sabe né!



(Foto da fábrica de maus motoristas da Coreia. Produção em massa!)

06/02/2010

Que andar é esse?

Esta foto foi tirada na porta de um elevador aqui na Coreia. Mais especificamente no prédio da Embaixada do Brasil em Seul. Alguém aí sabe me dizer que andar é esse representado pela letra F? Uma dica: não é o térreo, porque aqui na Coreia não tem o andar T que normalmente temos no Brasil, pois o térreo é sempre o número 1. Também não é o nosso G de garagem e nem algum S de subterrâneo. Aqui todo andar subterrâneo é representado pela numeração B1, B2, B3... sendo B3 mais abaixo que o B2.

"Que saco, fala logo o que é o tal do F!"

Calma, estou dando tempo para vocês adivinharem. Outra dica: não é o terraço, não é o Fim do prédio. "Poxa, então se não é o Fim e nem o Fundo, então F*deu, porque eu não sei."

Ora, é muito Fácil. É só contar em inglês: one, two, three... Four!!! Isso mesmo! Em muitos prédios na Coreia você vai encontrar os botõezinhos do elevador assim: B3, B2, B1, 1, 2, 3, F, 5, 6, 7, 8, 9...

A pergunta que não quer calar: Por que mais essa frescura? A resposta está na boa e velha superstição coreana. O número 4, em coreano, se diz sa (사), mas essa mesma palavra também significa morte em um outro caracter chinês (). Este é o motivo. O número 4 traria má sorte para o prédio, portanto resolveram substituí-lo pelo F de four.

Se precisar ir ao quarto andar num prédio coreano, não se preocupe, ele tá lá. Só que com um nome diferente! :)

03/02/2010

100 dias

Depois do jjimjilbang, tem gente aí "obviamente duvidando da minha masculinidade", como diria o Maçaranduba. Mas este post não tem nada a ver com isso, porque afinal não preciso ficar explicando em qual time eu jogo. Contudo, já que o DPNC tem um tom mais pessoal, deixa eu me expor mais um pouco na vitrine, atendendo a alguns pedidos, e vamos ver se dá mais ibope. A foto abaixo é da minha namorada, Ji Young, coreana. O motivo pelo qual resolvi contar sobre o namoro publicamente é que completamos no domingo 100 dias oficiais.

Eu e Ji Young

"Tá, e daí?", você pensa. O negócio é que os coreanos prezam muito pelos 100 primeiros dias de tudo, e o centésimo dia é sempre uma data a ser celebrada. No caso do namoro, dizem que os 100 primeiros dias são o teste de "compatibilidade". Se passar dessa marca, a coisa fica mais séria.

Mas a verdade é que eles simplesmente generalizaram uma celebração que fazia mais sentido na época da miséria na Coreia. Como a mortalidade infantil era altíssima, muitos bebês morriam nos primeiros dias de vida. Os que passavam dos 100 dias eram tidos como "fortes", os sobreviventes, pois já passaram pelo período de maior risco de morte.

O aniversário de 100 dias, então, tem uma importância simbólica maior ainda que o aniversário de 1 ano, mesmo nos dias de hoje. E tanto a celebração de 100 dias (백일) como a de 1 ano (돌) tem uma forte tradição de abençoar a criança para que seu futuro seja próspero. Muitos dos presentes dados ao bebê não são carrinhos, bonecas e afins - são coisas que ele só vai poder usufruir quando crescer, como anel de ouro, dinheiro, etc.

Uma família beeeeeem coreana. Aniversário de 100 dias super cute para o bebê. Repare na dinheirama à direita! (Foto tirada de um blogue coreano)

No aniversário de 1 ano, ou dol, há também o costume de se colocar objetos na frente da criança para que ela escolha e os pais possam "prever" o que o filho vai ser quando crescer. Alguns objetos usados são: lápis ou caderno (significa que a criança vai ser estudiosa), dinheiro (significa que vai ser rico), bola (significa que vai ser atleta... ou vagabundo!), estetoscópio (significa que o filho vai ser médico)... e por aí vai. Os pais mais espertinhos só colocam as opções que querem que o filho escolha.

Foto do "dol" do sobrinho da minha professora de coreano. Olhando rápido a gente até pensa que é um bolo em forma de bebê.

Domingo teve também a festa do primeiro aninho da Beatriz, do Sentada na Pia. Festança maravilhosa! Mas acho que tinham que ter feito o esqueminha pra ela escolher um objeto... Ficaram devendo hein, Renato e Selma! :)

Então, não se esqueça dos 100 dias. Se você tem um(a) namorado(a) coreano(a), faça algo especial no "centediário" que ele(a) vai ficar feliz!

27/01/2010

Jjimjilbang, a cultura coreana nua e crua (mais nua do que crua)

Há quase um ano atrás eu escrevi sobre os vários "bangues" que há na Coreia (PC-bang, DVD-bang, Sarang-bang, Jjimjil-bang...). Agora acabo de chegar de um jjimjilbang, e achei que deveria falar mais detalhadamente sobre esse que é um costume tão forte na cultura coreana.

Jjimjilbang (찜질방) é um tipo de sauna que usa um sistema antigo de aquecimento pelo chão. No mesmo lugar você encontra banheiras, chuveiros, piscinas e "camas" no chão para relaxar. Na verdade tem outros nomes parecidos para quase a mesma coisa: mogyoktang (목욕탕) ou simplesmente sauna (사우나)Ir ao jjimjilbang não é algo que o coreano faz só para relaxar. É também um encontro social e familiar. É muito comum ver amigos, pais e filhos indo juntos.


Deixa eu explicar como funciona o jjimjilbang. Primeiro, você precisa saber como achar um, e pra isso nem precisa saber falar coreano. Em qualquer lugar da Coreia, quando você vir uma placa como esta ao lado, com um símbolo vermelho de "fumacinha", significa que aí tem sauna. Na da foto, na verdade, tem escrito logo abaixo "motel", mas isso é porque o motel oferece também o jjimjilbang.

Depois que você já localizou um jjimjilbang, você tem que decidir se está pronto para se despir dos seus preconceitos, suas nojeiras e, claro, das suas roupas. Você chega na recepção, paga de 6 a 10 mil wons para ficar o tempo que quiser, deixa o calçado no armário, homem vai para um lado e mulher para o outro. Você mal entra e já vê aquele mundaréu de gente pelada pra todo lado! E como você é estrangeiro, todos os olhinhos puxados já detectaram a sua presença e estão atentos ao seu istripitízi. Depois de colocar as roupas no armário, você se junta ao clube dos peladões. Esse é o momento de desistir. Agora ou nunca. Mas como você já pagou, vai ter que ir né!

Brincadeiras à parte, eu acho os jjimjilbangues da Coreia bem "luxuosos". Afinal, eu sou um pobre estudante que moro num one-room e tenho apenas 20 metros quadrados para andar em casa. Imagine só o meu banheiro. No jjimjilbang, tenho pelo menos umas 5 jacuzzis para escolher, de acordo com a temperatura e o tipo da água (de barro, de ginseng, de chá verde, ou só água mesmo). Tem também umas 3 ou 4 saunas, secas ou não, com várias temperaturas. Tudo muito arrumadinho, com uma telinha mostrando a temperatura atual.

Num outro canto tem chuveiros com banquinhos. Aí vale uma explicação. Existem duas palavras para "tomar banho" em coreano: shawo-hada (샤워하다) e mogyok-hada (목욕하다). Sempre que eu queria dizer "vou tomar banho", eu usava a primeira, já que é mais fácil e vem do inglês "shower". Mas um amigo me explicou a diferença: tomar um "shower" é só passar uma aguinha (sem trema!), é como nós dizemos "tomar uma ducha". E é mais ou menos isso que os coreanos fazem todo dia: passam uma água no corpo. Já o mogyok é mais intenso, é "a arte de tomar banho". E para isso, os coreanos vão ao jjimjilbang ou ao mogyoktang. Depois de passarem pelas várias jacuzzis, pelas saunas, duchas e piscinas, eles tomam AQUELE banho de esfregar tudo e espantar os "ispritu ruim", alguns tiram um cochilo e vão embora.

Quando falei para um coreano que esse "banho bem tomado" a gente normalmente toma todo dia no Brasil, até mais de uma vez por dia, ele ficou muito surpreso e disse que aqui na Coreia eles aprendem que usar muito sabão e esfregar com muita frequência faz mal para a pele. Manda esse pessoal pro calor do Brasil e injeta os hormônios do CC (que eles felizmente não têm) e vamos ver se eles mudam de ideia.

Obviamente que não dá para eu mostrar fotos de dentro do jjimjilbang aqui, mas garanto que é muito bom depois que você desencana com a homaiada pelada andando para todo lado, conversando com você e ajudando a esfregar seus irmãos, pais, filhos ou amigos. A gente sempre dá uma zuadinha nessas boioli... digo, nos costumes coreanos. Mas a verdade é que nossa sociedade homofóbica faz os homens em especial terem um comportamento muito travado, com medo de qualquer coisa fazer com que ele pareça ser "menos homem".

Não sei o que rola no jjimjilbang das mulheres, teria que ter alguma menina aí para contar pra gente. Ouvi dizer que isso é igual no Japão, com um plus: lá eles tem as saunas mistas! (Os leitores que moram no Japão confirmam?)


Ah, e outra. Alguns jjimjilbangues têm uma área unissex, só que ninguém fica pelado. Geralmente as famílias se reúnem, comem alguma coisa, veem a novela numa tela gigantesca, ou deitam e dormem. É uma boa opção de hotel barato para quem não tem dinheiro, já que não tem limite de tempo e fica aberto 24 horas.

Duas coisas que os coreanos dizem que é bom comer e tomar quando se sua muito na sauna: um ovo cozido meio diferente (você quebra e come na hora) e uma bebida que se chama shikhye (식혜), feita de arroz (como mais um monte de outras coisas). A bebida até que é boa, mas esse ovo não me desce muito não. Depende do momento.


Casal coreano comendo ovo e tomando shikhye.


Crianças brincando na área comum do jjimjilbang. Não me pergunte como eles enrolam a toalha nesse estilo Mickey Mouse!

Espero que tenham gostado de conhecer um pouco mais sobre esse "bangue" coreano. Quando vier à Coreia, lembre-se onde você pode ficar peladão/dona o tempo que quiser.

26/01/2010

Como ajudar os coreanos a fazerem mais coreaninhos?

O leitor André, que aparentemente trabalha na Samsung no Brasil, deixou um comentário com um link para esta reportagem do Estadão sobre a taxa de natalidade na Coreia do Sul. Para quem tá com preguiça de ler, vou resumir: ela fala sobre as medidas que o Ministro da Saúde do governo sul-coreano tem tomado para aumentar a taxa de natalidade que é uma das mais baixas do mundo (1,2 se não me engano) e ajudar os coreanos a passarem mais tempo fazendo coreaninhos.

Para um país manter a reposição da população e, portanto, garantir uma população economicamente ativa que sustente a base e o topo da pirâmide (as crianças e os idosos), é necessária uma taxa de natalidade de pelo menos 2,1* filhos por casal. (*Não me perguntem de onde veio esse 0,1. Mas suspeito que seja para garantir que 2 cheguem à fase adulta, já que uma turma se perde aí no meio do caminho).

O que fazer então, ó Coreia? A reportagem do Estadão falou - não muito seriamente - das medidas tomadas para atacar um dos problemas: os trabalhadores passam tempo demais no trabalho e pouco tempo com a família. A cultura corporativa na Coreia é simplesmente massacrante: os coreanos trabalham em média 12 horas por dia, raramente recebem hora-extra e ainda têm o costume de sair com os colegas de trabalho à noite durante a semana. Resultado: se têm cônjuge em casa, chegam cansados demais para "dar no couro" e fazer filhinhos. Se já têm filhos, não têm tempo para ficar com eles. E é isso que o Ministro da Saúde está tentando estimular: uma mudança cultural que permitam que os trabalhadores passem menos tempo no trabalho e mais tempo com a família.


"Quase não vejo meu papai!" :(

A meu ver, esse problema é grave porém não o maior. Digo, no que diz respeito o número de filhos que cada casal tem. Afinal, "fazer" o filho é fácil. Ainda que os casais só se encontrassem nos fins de semana, se quisessem ter filhos, eles teriam. Acho que outros problemas mais graves são: o altíssimo índice de abortos e de custo de vida (principalmente de educação).

Para quem vem de um país tão católico, é de assustar a naturalidade com que as pessoas falam em fazer um aborto na Coreia. A questão deles não é "se o feto já é 'gente' ou não", mas simplesmente se os pais já estão casados, se já têm dinheiro suficiente, ou se foi só uma escapulida. A lei aqui proíbe o aborto, mas ainda é fraca em coibir que eles aconteçam em larga escala.

Só para ilustrar a gravidade da coisa. Um dia eu conversava com alguns coreanos sobre esse assunto, perguntei a uma menina: "Se você descobrisse que está grávida de 2 meses mas não é casada, abortaria?". A resposta foi mais rápida que o Chapolim Colorado, sem titubear: "Claro!". Tentei questionar: "Mas você não considera um feto de 2 meses como um ser humano, para se descartar tão fácil assim?". "Ahn? É só um feto, não é uma pessoa ainda." Depois eu comentei também sobre uma reportagem que vi no Brasil mostrando os traumas emocionais nas mães que cometeram abortos, e que isso também é algo a se pensar. Algumas das meninas disseram conhecer alguém que já tenha feito um aborto, mas nunca ouviram falar de trauma nenhum por causa disso.


Foto do AsiaNews.it, que fala sobre como os abortos prejudicam a sociedade coreana

Outra coisa: não se vê propaganda de preservativo na TV, e mesmo nas escolas ainda é tabu. Pelo que andei perguntando, o uso da camisinha é quase nulo entre os coreanos e, portanto, o índice de gravidez indesejada que leva ao aborto é muito alto.

O outro motivo que leva os casais a terem menos filhos é o mesmo dos casais de classe média nas grandes cidades do Brasil: o alto custo de vida, principalmente de educação. Ao contrário do que se pensa, escola na Coreia não é de graça do jardim de infância ao ensino médio. Universidade, muito menos! O governo oferece educação de graça em alguns níveis (não sei exatamente quais) e há muitos programas de bolsas para bons alunos, mas em geral sempre tem que haver uma contrapartida da família. E como o nível educacional do país é alto, a competitividade aumenta, e os pais terão que pagar mais para seus filhos conseguirem competir no mercado de trabalho. É curso de inglês, japonês, chinês, matemática, música, natação, ginástica, cirurgia na pálpebra, no nariz, nado sincronizado, enfim... o que o menino puder fazer para se diferenciar, os pais devem pagar. Como é que você convence um casal a ter mais de um filho nessas condições?

O que tem segurado as pontas legal, e os próprios coreanos ainda não deram o devido reconhecimento, são as famílias mistas do interior do país. Geralmente são fazendeiros que se casam com mulheres vietnamitas (compradas?) e têm seus 3, 4 filhos. Seguram a onda também os estrangeiros que têm vindo em massa nos últimos anos para trabalhar ou que se casam e têm mais filhos que a média. Se você der um pulinho em Itaewon por exemplo, vai ver casais de indianos e muçulmanos com sua meia-dúzia de pimpolhos andando nas ruas.

Acho bom ver o governo sul-coreano finalmente acordando para a questão, mas vão precisar de muito mais esforço do que o "Ministro de Encontro de Casais" já tem feito. Se não tiverem sucesso, o bom é que vai sobrar emprego pros estrangeiros daqui a alguns anos.

21/01/2010

Coisas da Coreia: o país que popularizou o LED não desgruda do toca fitas!

Uma das primeiras coisas que notei ao chegar à Coreia em 2008 foi que o país é moderno mas não o quanto poderia realmente ser. O apego ao que é velho, em alguns pontos, faz os coreanos pararem no tempo quando podiam estar surfando alto no que há de mais novo no mundo tecnológico.

Vou dar um exemplo. Num país em que os produtos eletrônicos movem grande parte de sua economia, e que tem gerado grandes inovações (como as telas LED, que consomem quase nada de energia), dá para acreditar que ainda oferecem tocador de fita cassete como opcional na hora de comprar um carro? E não oferecem só por oferecer: é porque ainda tem demanda! Isso mesmo. Se você vai num mercado aberto em Seul, vai encontrar DVDs, CDs e... muita fita cassete!



No Brasil, acredito eu, essa transição foi muito mais rápida. O pessoal não teve apego nenhum com as fitinhas, e até nas casas mais pobres do Brasil hoje em dia dá pra encontrar um CD player. Aqui na Coreia, como o poder aquisitivo médio é muito mais alto e os produtos eletrônicos muito mais baratos, não vejo motivo nenhum para continuarem usando tocadores analógicos. Só pode ser amor mesmo.

É óbvio que as novas gerações não caem nessa de fita cassete, mas caem em outras tecnologias retrógradas que eles nem sabem que são retrógradas. A mais comum - não sei se já ouviram falar - é um sistema operacional que se chama Windows XP, e também um navegador chamado Internet Explorer, mais especificamente a versão 6.0.

Nos anos 90, o governo fez um pacto com a Microsoft, e vendeu a alma do povo coreano para sempre. É a única explicação "lógica" que encontrei para tamanha dependência de um único sistema operacional e um único navegador com uma única versão. Se você tenta usar navegadores melhores, como o Firefox, ou sistemas mais estáveis, como o Linux ou Mac OS X, os sites coreanos simplesmente piram. É tudo feito na base do ActiveX, sem democracia digital nenhuma. Ou você entra no esquema ou vira "uma voz que clama no deserto", como é o meu caso, que uso Mac, e do Juliano, que usa o Linux.

Um dia tinha um amigo coreano reclamando da lerdeza do computador dele. Não era a internet, porque a internet na Coreia é mais rápida do mundo. É realmente de assustar. Mas ele não conseguia navegar em três janelas do Internet Explorer ao mesmo tempo sem dar pau. Daí sugeri que ele usasse o Firefox. "Fire... quem?". "Firefox!". O cara nunca tinha ouvido falar. Baixou, instalou e ficou maravilhado com a rapidez. Nunca tinha pensado antes que pudesse existir uma alternativa para o inferno que ele vivia.

Uma semana depois eu perguntei: "E aí, tá gostando de usar outro navegador que não seja aquele Internet Explorer antigão?", e ele respondeu "Hmm, tive que voltar para o IE, porque o site da universidade não funcionou no Firefox...". E então fica tudo na mesma. Quem faz os sites, continua usando o ActiveX porque 99,99% dos internautas coreanos usam o Internet Explorer. E quem quer mudar não consegue, porque os desenvolvedores não se desenvolveram.

Na telefonia celular, a Coreia teve a "honra" de ser o único país da OCDE que ainda usa o sistema CDMA em vez do GSM, e fez o que pôde para impedir que telefones que não fossem da Samsung ou LG entrassem no país competitivamente. O iPhone, por exemplo, que já tinha chegado até em Uganda, só chegou aqui há dois meses.

O resultado disso é que a Coreia do Sul tem a internet mais rápida do mundo, um dos maiores potenciais de inovação de hardware, e um monte de tranqueira tecnológica pelo caminho.

Para se ter ideia do quão bizarra é a situação da Coreia no mundo virtual, esse é o único país democrático em que o Google não é usado como principal ferramenta de busca. Consequentemente, todos os outros produtos do Google e seus parceiros não têm muita presença por aqui. O Youtube hospedado na Coreia nem funciona! (a menos que você preencha um cadastro marrrdito lá). Sempre que quero subir um vídeo no Youtube, entro no site brasileiro, senão nem dá. E eu ficava me perguntando o porquê de tanto isolamento virtual. Será nacionalismo tecnológico?

Não encontrei respostas para todas as outras discrepâncias, mas andei investigando um pouco mais sobre o buscador do Naver e tentei compará-lo ao Google, já que ele oferece o serviço em coreano também. O resultado foi que o Naver não só traz resultados muito mais precisos, mas o seu layout também ajuda muito.


Eu fiz um teste buscando a palavra "Brazil" no Google e no Naver. O resultado do Google trazia no topo da página algumas imagens, depois a Wikipédia, depois alguns resultados na ordem que o Google julga mais relevante. O resultado do Naver, no entanto, trouxe, no topo da página, fotos do Brasil, informações gerais (população, capital, essas coisas), o hino nacional com um botão "play", um relógio com a hora na capital e a cotação da moeda brasileira no momento procurado. Mais abaixo vieram sites oficiais, blogues, filmes, músicas, livros e publicações acadêmicas, tudo dividido bonitinho. Se você procura o nome de uma música, já aparece tudo separadinho: a letra da música, o artista, o álbum, link para download... uma beleza!

Depois desse teste, posso dizer que se o Naver oferecesse serviços mais abrangentes no mundo todo, eu o escolheria como buscador principal. Então nesse ponto os coreanos pelo menos têm motivos para não se deixarem levar pela onda googliana. Mas nas outras brega-retrogredices, é mais bizarrice corena mesmo.

20/01/2010

Fábrica de papel em Andong




Quando fomos para Andong, antes do Natal, um dos lugares que visitamos foi uma pequena fábrica de papel. Parece que o tempo parou por lá: os equipamentos, o lugar, tudo parece ser o mesmo há 50 anos. Até um rádio velho tocando música tranquila (dá pra ouvir no vídeo) enquanto eles trabalham.

O processo de fabricação artesanal de papel não tem muita novidade para mim, mas pode ser que alguém aí nunca tenha visto antes. Porém o interessante é que nesse lugar eles usam apenas a fibra da casca da árvore (não me perguntem qual espécie) de maneira que fazem papel sem que a árvore morra. Creio que isso demande um grande número de árvores disponíveis que regeneram suas cascas rapidamente, para que se tenha um sistema de produção lucrativo e sustentável.

Outra coisa que me chamou a atenção foi que os homens e as mulheres trabalham em lugares separados. Nesse esquema fordista de divisão de funções, não vi homens e mulheres dividindo a mesma função em nenhum nível. Taí o momento curiosidade do blogue. ^_^

14/01/2010

Você já experimentou tteok-mandu-kuk?

AVISO: Este post contém linguagem imprópria para menores.

Semana passada, um amigo coreano chegou para mim e falou: "Vi uma reportagem sobre o Brasil na TV e aprendi uma expressão em português!". Eu: "Ah, é? Que expressão?". "Tomá no **!". Eu fiquei perplexo. Tentei imaginar por que motivo o sujeito aprenderia tal expressão num programa de TV.

Depois até esqueci do assunto, mas no fim de semana conversamos sobre isso com o Juliano, que parece ter visto o programa, e explicou sobre o que era. É que tem um prato coreano que se chama tteok-mandu-kuk (떡만두국), mas quando se pronuncia rápido, soa exatamente como "tomá no **".


Tteok (떡) é o bolinho de arroz, que inclusive vão comer muito aí no Ano Novo Chinês que está por vir. Mandu (만두) é um tipo de pastelzinho que se vende em todo lugar, cozido ou frito. Eu mesmo sempre como aqui em casa. E kuk (국) significa "sopa". Ou seja: tteok-mandu-kuk é uma "sopa de tteok com mandu". Agora, imagina a confusão que isso não deve dar nos restaurantes coreanos no Brasil?

É sobre isso que o tal programa fala. O Juliano achou o vídeo no Youtube e compartilhou pelo Twitter. Notem como eles repetem e repetem e repetem a expressão sem o menor pudor, já que para eles não faz sentido nenhum.



E você? Já experimentou tteok-mandu-kuk? ^_^

Jogos para beber soju

Como o blogue Blackout Korea mostra bem, a Coreia do Sul é um país em que os "rituais" da bebida são bem fortes e fazem parte da cultura. Eu já disse aqui antes como é importante saber as regras quando se bebe com alguém mais velho ou alguma autoridade. Tem que segurar o copo com as duas mãos, virar para o lado na hora da golada, enfim, essas coisas coreanas. E rejeitar um copo de soju de um professor ou superior no seu trabalho é um grande absurdo!

Entre amigos, no entanto, a coisa é um pouco diferente. Bebe-se tanto quanto os mais velhos, mas sem muita "nove horas". E para descontrair, jogam-se muitos jogos para decidir quem toma a golada da vez. Acredito que jogos do tipo existam em todo país onde se bebe muito, mas aqui parece ser particularmente mais popular. Principalmente quando se tem na turma pessoas que não gostam ou não têm costume de beber muito, os jogos são uma chance de se ver tal pessoa mais "alegrinha" com uns copos de soju.

Abaixo tem um vídeo que gravei quando brincava com meus amigos. A lista de jogos parece ser infinita, mas decidi gravar alguns para compartilhar com vocês. Caso queiram aprender a jogá-los, vou tentar explicar as regras, apesar de ser sempre difícil explicar regra de jogo sem jogar. Quem fala um pouco de coreano pode entender melhor pelo vídeo.

"Baskin Robins 31"
Para quem não sabe, Baskin Robins é uma rede de sorveterias que está em todo lugar na Coreia. E uma propaganda famosa, na qual divulgavam 31 sabores de sorvetes, acabou gerando a brincadeira. É bem fácil: numa roda, seguindo a ordem, cada um diz 1, 2 ou 3 números, começando do 1. Quem cair no 31 tem que beber. Geralmente os últimos é que têm o poder de escolha e decidem quem bebe na rodada. A musiquinha no ínicio diz, em inglês, "Baskin Robins thirty-one"♪.

"Frying Pan Game" (후라이팬 놀이)
Não tem frigideira nenhuma na brincadeira, é só um nome ilustrativo. É um jogo que exige atenção e coordenação motora. A musiquinha no início diz "ting-ting-ting-ting / teng-teng-teng-teng / ting-ting / teng-teng / huraipen nori" (띵띵띵띵 / 뗑뗑뗑뗑 / 띵띵 / 뗑뗑 / 후라이팬 놀이♬).

Basicamente segue um ritmo de quatro batidas (como no vídeo) no qual alguém diz nas duas últimas batidas o nome de outra pessoa e um número de 1 a 4. Esse número decide quantas vezes a pessoa tem que dizer o próprio nome, no ritmo das batidas. Por exemplo, se disserem "João Três", o João tem que dizer logo em seguida "João, João, João" nas três últimas batidas e logo em seguida colocar alguém na frigideira: "Zé Quatro"... "Zé, Zé, Zé, Zé". Quem errar, claro, bebe soju.

"Bunny-Bunny Game" (바니바니 당근당근 게임)
Bunny, em inglês, signfica "coelhinho". Já ouvi um papo aqui na Coreia de que eles falam de um tal coelho na lua. Não sei se é o formato das crateras que dão essa impressão ou se é só uma lenda conhecida. Mas acho que esse jogo tem a ver com a história. É que a musiquinha que inicia o jogo diz o seguinte: "Palavras do coelho que desceu..." (토끼 내려온 하는 말♬). E eu perguntei "desceu de onde?" e me falaram "do céu, ora!"

Depois é só alguém começar dizendo "bunny-bunny" para si, e em seguida "bunny-bunny" para alguém. Esse alguém tem que responder com o mesmo "bunny-bunny" e escolher outra pessoa. Quem estiver do lado do escolhido tem que dizer "danggeun-danggeun" (cenoura-cenoura) ao mesmo tempo. Tudo isso com os devidos gestos. Nesse jogo dá pra mais de uma pessoa errar, então mais gente bebe.

"Corrida de Cavalos" (경마 게임)
Este jogo é bem simples, mas tem que ficar atento o tempo todo. A musiquinha de início diz "Esse é um que gostamos muito: Corrida de Cavalos!" (어떤 많이 좋아하는 경마 게임!♬). Depois é só fazer uma rodada estabelecendo os número: "Número 1, número 2, número 3...". O "cavalo" número 1 começa chamando outro cavalo, dizendo "número 1, número 7" e o 7 responde para quem quiser: "número 7, número 3". Quem errar ou demorar, bebe.

"Jogo do Bobo" (바보 게임)
Esse não tem nada de mais, e até bobo mesmo. Mas confesso que dá pra confundir a cabeça se você não se concentrar. Tudo o que você tem que fazer é dizer um número (de 0 a 10) e mostrar outro número com a mão para a pessoa ao lado. A pessoa tem que dizer o número que você mostrou e mostrar outro diferente. Se você disser e mostrar o mesmo número, erra. E quem erra... bebe!